Saltar para o conteúdo

Esta é a melhor altura para tirar estacas de figueira: veja como fazê-lo em outubro.

Pessoa a podar um ramo de figueira num jardim, com utensílios de jardinagem sobre uma mesa de madeira.

O ar fresco de outubro, um leve cheiro a fumo de lenha, um último melro a gritar na sebe. Desta vez ele não estava a apanhar fruta, apenas a cortar, com calma, raminhos silenciosos e a deixá-los cair num balde como se fossem um tesouro.

Tens observado aquela figueira durante anos, carregada de frutos doces no fim do verão, enquanto a tua se mantinha caprichosa e avarenta. Agora as folhas estão a ficar cor de bronze, o jardim abranda, e de repente ele está lá fora a multiplicar a árvore como se não fosse nada.

  • É o melhor mês para isto - encolhe os ombros, limpando as tesouras de poda na manga. - No próximo verão, isto já são plantas a sério.

Os ramos cortados no balde parecem banais. Quase tristes. Mas já está a começar ali qualquer coisa que não se vê.

Porque é que outubro é uma janela mágica para estacas de figueira

Outubro apanha as figueiras naquele momento intermédio. O crescimento deixou de avançar com força, a seiva abranda, e a árvore está a armazenar energia na madeira, em silêncio. Sente-se nos caules mais grossos e firmes quando os vergas com cuidado.

A parte vistosa da estação acabou. As folhas amarelecem, a fruta está quase toda colhida, e o jardim parece estar a expirar. Mas, escondido nesses ramos com um ano, está tudo o que uma nova figueira precisa: açúcares armazenados, gomos dormentes e um tipo de calma que o crescimento de verão nunca tem.

Essa calma é a tua oportunidade.

Num pequeno jardim traseiro em Londres, uma única figueira velha foi “clonada” até formar uma fila inteira ao longo da vedação. O dono começou em outubro, há dez anos, com quatro estacas enfiadas em vasos de plástico velhos. Hoje, mal se veem os painéis da vedação por causa do emaranhado de ramos e dos frutos gordos e listrados.

Agora ele ri-se disso. Na altura, achava que talvez um ou dois paus criassem raízes, se tivesse sorte. Em vez disso, o solo fresco do outono e a luz suave fizeram o trabalho silencioso. Na primavera, três das quatro estacas tinham lançado folhas, e ele deu por si a oferecer figueirinhas a amigos como se fossem tomateiros.

Histórias assim espalham-se depressa entre jardineiros. Um primo em Espanha. Um amigo em Bristol. Um desconhecido no Instagram em Chicago. Todos a mostrar o que começou como raminhos nus de outubro a que ninguém ligou.

Há uma lógica simples por detrás da magia de outubro. Quando tiras uma estaca de figueira agora, estás a trabalhar com madeira que amadureceu ao longo da estação. Não é macia e cheia de seiva como as pontas da primavera. Essa maturidade significa menos risco de apodrecimento e mais energia armazenada para alimentar novas raízes.

O tempo também ajuda. O solo ainda guarda o calor do verão, mas o calor agressivo já passou. O ar é mais fresco, a luz é mais suave, e há menos stress para uma estaca que ainda não tem sistema radicular. Pode ficar quieta, cicatrizar no corte e começar a formar raízes sem ser empurrada a produzir folhas depressa demais.

Quando chega o frio a sério do inverno, uma boa estaca já fez os primeiros movimentos invisíveis. Depois, limita-se a esperar, meio adormecida, pronta a explodir em vida quando os dias voltarem a alongar.

Como tirar estacas de figueira em outubro - passo a passo

Começa pela madeira certa. Procura o crescimento deste ano que passou de verde a castanho e se sente firme, com espessura semelhante à de um lápis. Corta segmentos de 15–20 cm (6–8 polegadas), cada um com pelo menos três nós ou gomos visíveis ao longo do caule.

Faz um corte limpo em baixo, mesmo por baixo de um nó, e um corte direito em cima, acima de um nó. Assim não confundes qual é a ponta que entra no substrato. Retira quaisquer folhas que ainda restem e, se houver ponta verde e macia, corta-a. Queres a estaca focada em raízes, não em manter folhas vivas.

Mergulha a ponta inferior em hormona de enraizamento se tiveres, e põe as estacas de lado enquanto preparas a casa nova.

As estacas de figueira não são esquisitas, mas detestam ficar em composto encharcado e pesado. Mistura um meio leve e drenante: metade composto universal, metade perlite ou areia grossa. Enche vasos fundos, ou até um recipiente alto reciclado com furos de drenagem, e rega a mistura para assentar.

Espeta cada estaca de forma a que pelo menos dois nós fiquem enterrados, deixando um nó acima da superfície. Acalca a mistura suavemente à volta do caule. Podes plantar várias estacas junto à borda do mesmo vaso; a borda dá mais estabilidade e ocupa menos espaço.

Coloca os vasos num local luminoso, mas sem sol forte ao meio-dia. Uma estufa fria, uma parede abrigada, ou uma marquise/lugar luminoso sem aquecimento funciona bem. As estacas não precisam de tapetes de calor, borrifos diários nem cuidados complexos. Na maior parte do tempo, precisam é que não mexas demasiado.

Muita gente admite em segredo que tem receio de cortar uma árvore de que gosta. Parece um pouco como quebrar uma promessa. É por isso que tantos jardineiros adiam ano após ano, à espera do momento “perfeito”, do tutorial “perfeito”, das ferramentas “perfeitas”.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Os maiores erros? Deixar as estacas secarem por completo, ou afogá-las em bondade com regas constantes e pesadas. As figueiras são mediterrânicas por natureza. Gostam de “pés” ligeiramente húmidos, não de estar num pântano. Portanto, regas e depois deixas a parte de cima do substrato secar um pouco antes de voltares a regar.

Outra armadilha é a impaciência. As pessoas veem paus nus durante semanas e assumem que nada está a acontecer. Puxam para “verificar” as raízes e partem as mais finas que acabaram de se formar. Deixar as estacas em paz é, muitas vezes, a parte mais difícil.

“A melhor coisa que fiz pelas minhas estacas de figueira”, diz um hortelão perto de Bristol, “foi esquecê-las durante um mês. Meti-as num vaso em outubro, enfiei-o na estufa fria e tratei da vida de inverno. Quando abri em março, estavam a rebentar folhas como se estivessem a planear uma festa surpresa.”

Para manter tudo claro na cabeça numa tarde cinzenta de outubro, ajuda ter uma pequena lista mental.

  • Escolhe madeira com um ano, com espessura de lápis
  • Corta segmentos de 15–20 cm com pelo menos três nós
  • Remove folhas e pontas macias
  • Usa um substrato leve e bem drenante
  • Mantém a terra ligeiramente húmida, não encharcada

Viver com a espera - e o que acontece a seguir

Há um tipo particular de esperança silenciosa numa fila de vasos anónimos alinhados em outubro. Numa terça-feira chuvosa parecem nada. Apenas terra húmida e uma etiqueta que diz “Figueira - árvore do jardim da frente”. E, no entanto, dás por ti a olhar para eles quando estendes roupa ou levas o lixo para fora.

Numa manhã luminosa de geada, bates de leve no lado do vaso, sentindo o peso. Varres as folhas caídas da superfície. Resistes ao impulso de enfiar o dedo. Tornam-se um pequeno ritual diário sem que tenhas propriamente decidido isso.

Numa tarde sombria de janeiro, aqueles vasos são uma espécie de promessa.

Todos já tivemos aquele momento de visitar alguém com uma figueira generosa e pensar: “Um dia vou ter uma assim.” As estacas de outubro transformam esse sonho de inveja vaga num plano real. São baratas, são pessoais e trazem o ADN de uma árvore que já sabes que dá fruta de que gostas.

Em março ou abril, novas folhas desenrolam-se como pequenas mãos verdes. As raízes terão enchido os vasos mais do que imaginas. Vais virar um vaso e ver uma rede densa e branca a agarrar o composto. É aí que percebes que os meses invisíveis não foram vazios.

A partir daí, a história ramifica-se. Algumas pessoas mudam as figueiras jovens para vasos maiores e mantêm-nas em contentores durante anos. Outras plantam-nas junto a paredes quentes, fazem suportes simples e começam a conduzir em leque. De qualquer forma, cada novo rebento traz a memória daquela tarde silenciosa de outubro, quando eras apenas uma pessoa com tesouras de poda e alguma curiosidade.

Pode ser que ofereças uma a um amigo que vai mudar de casa. Pode ser que guardes uma “para o caso”, e depois dês por ti a redesenhar o jardim inteiro porque, de repente, tens três figueiras em vez de uma. Pode ser que sejas tu o vizinho, no próximo ano, encostado a uma escada enquanto alguém observa e pensa: “Eu conseguia fazer isso.”

As estacas que tiras este outubro não são apenas fruta futura. São sombra futura, sobremesas de verão futuras, conversas futuras por cima da vedação. São uma resposta lenta e enraizada à sensação de que tudo anda depressa demais. E começam com aquela decisão pequena, quase imprudente, de cortar uma árvore viva e confiar no que ela consegue fazer.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Melhor altura Outubro, quando a madeira da figueira está madura e rica em energia Maximiza a taxa de sucesso com o mínimo de esforço
Tipo de estaca ideal Caules do ano anterior, com espessura de lápis, 15–20 cm de comprimento Dá origem a plantas futuras fortes e bem equilibradas
Condições de enraizamento Mistura leve e drenante e abrigo fresco e luminoso Evita apodrecimento e incentiva um crescimento constante das raízes

Perguntas frequentes

  • Quanto tempo demoram a enraizar estacas de figueira tiradas em outubro? A maioria começa a formar raízes em 4–8 semanas, embora só vejas folhas no fim do inverno ou no início da primavera.
  • As estacas de figueira precisam de ficar dentro de casa durante o inverno? Não precisam de aquecimento; uma estufa fria, uma marquise/varanda abrigada ou uma estufa sem aquecimento costuma dar proteção suficiente.
  • Posso enraizar estacas de figueira diretamente no solo em outubro? Sim, em climas amenos podes plantá-las num canteiro preparado, mas em vaso é mais fácil monitorizar e mover.
  • Devo usar hormona de enraizamento em estacas de figueira? As figueiras enraízam bem sem ela, embora um ligeiro mergulho em pó ou gel possa acelerar um pouco e reduzir perdas.
  • Quando posso esperar fruta de uma figueira criada a partir de uma estaca de outubro? Muitas começam a frutificar no terceiro ou quarto ano, se tiverem boa luz e receberem rega e podas sensatas.

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário