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Segundo este jardineiro experiente, esta "erva daninha" é na verdade útil para a sua horta.

Pessoa a cortar ervas numa cesta de vime, num jardim, com jarro de vidro, balde e regador de metal sobre a mesa.

Todos os outros arrancavam as ervas daninhas em braçadas iradas. Ele cortava-as com suavidade, pousando-as com cuidado entre as suas filas de tomates e couves, como se estivesse a aconchegar crianças para a noite.

O sol batia-lhe na nuca; a camisa, manchada de terra e suor, mas os movimentos mantinham-se calmos. Deliberados. Onde eu via uma invasão verde e desordenada, ele parecia ver uma espécie de ordem. “Continuas a deitar fora os teus melhores ajudantes”, disse ele, sem sequer levantar a cabeça.

Demorou algum tempo até eu perceber que ele falava de uma “erva daninha” específica que a maioria de nós arranca sem pensar duas vezes. A mesma que, em silêncio, alimentava o solo dele, arrefecia os canteiros e protegia as plântulas.

Uma erva daninha que pode ser o recurso que falta à sua horta.

A “erva daninha” que o seu solo adora em segredo

Os canteiros do Martin estavam entremeados de algo que eu normalmente detesto: urtiga (urtiga-comum), a aparecer aqui e ali como se fosse dona do lugar. Só que não estava a sufocar as plantas dele. Mantinha-a em tufos, cortando-a pouco antes da floração e deixando caírem caules e folhas como um tapete macio entre as culturas.

Em vez de terra nua e rachada, o chão da horta dele parecia uma floresta em miniatura. Escuro, húmido, protegido. As alfaces ali estavam como se estivessem de férias. Nem uma única planta parecia stressada ou com sede, apesar de as parcelas ao lado estarem a definhar a sério.

Ele sorriu quando apontei para as urtigas. “Isso? Isso é adubo gratuito.”

Numa tarde quente de julho, via-se a diferença a olho nu. Uma parcela ao lado, uma horticultora tinha feito tudo “como manda a regra”: filas limpas, terra rastelada e lisa, cada erva daninha removida no segundo em que ousava aparecer. Os pimentos inclinavam-se para o lado, com folhas rijas e cansadas. O solo entre eles estava pálido, quase cinzento, e quente ao toque.

No canteiro do Martin, a minha mão afundou-se em migalhas frescas e escuras sob a cobertura de urtiga. Sem crosta, sem pó. Apenas aquele cheiro doce e terroso que se sente depois da chuva. As suas feijoeiras enrolavam-se nos suportes como se não houvesse lugar melhor.

Disse-me que não comprava fertilizante há anos. Nem granulados, nem cristais azuis, nem “reforços orgânicos” caros. Só restos de cozinha, um pouco de composto, e esta planta selvagem contra a qual toda a gente luta. Não era vistosa, não era bonita, mas dava-lhe discretamente a única coisa que qualquer horticultor procura: um solo profundo e vivo.

Há uma razão simples para esta suposta erva daninha funcionar tão bem. As urtigas são o que alguns jardineiros chamam “acumuladoras dinâmicas”: puxam minerais das camadas mais profundas do terreno e armazenam-nos nas folhas. Quando as corta e as deixa à superfície, esses nutrientes voltam diretamente para a camada superior do solo à medida que a planta se decompõe.

Em termos simples: as urtigas funcionam como pequenos elevadores de nutrientes. Agarram azoto, ferro, magnésio e um monte de oligoelementos de que os seus vegetais gostam, e entregam-nos de graça. Sem embalagem, sem marca, sem marketing. Apenas biologia a funcionar.

Esta camada de urtiga cortada também atua como um escudo. Abranda a evaporação, mantém a vida do solo à sombra e ativa, e amortece o impacto da chuva forte. Fala-se muito em alimentar plantas, mas o Martin repetia sempre a mesma frase: “Estou a alimentar o solo, não a cultura.” As urtigas eram o seu intermediário silencioso.

Como este horticultor usa realmente as urtigas - passo a passo

Eis como o Martin transforma esta “erva daninha” num recurso sem a deixar tomar conta de tudo. Ele nunca deixa as urtigas irem a semente. Assim que atingem mais ou menos a altura do joelho e começam a pensar em florir, corta-as rente ao chão com tesouras bem afiadas.

Usa luvas, sim, mas é rápido e quase descontraído. Os caules e as folhas caem em montes macios, e ele sacode quaisquer insetos antes de espalhar a urtiga à volta dos vegetais. Tomates, brássicas, curgetes, batatas - todos recebem uma base espessa de verde cortado.

Regra simples, diz ele: “O verde volta para o chão.” Sem passar primeiro pelo compostor, sem sistema complicado. Vai direto da erva para a cobertura, exatamente onde os nutrientes fazem falta.

Ele mantém também uma zona separada onde as urtigas são “autorizadas” a viver livremente. É a sua zona de colheita. Uma ou duas vezes por mês, durante a época de crescimento, corta dessa mancha para fazer chorume de urtiga - aquele fertilizante líquido, famoso, escuro e malcheiroso. Um balde, água, urtigas cortadas, um pouco de paciência, e chega.

Ele ri-se quando as pessoas falam em receitas perfeitas ou dias exatos de fermentação. “Sejamos honestos: ninguém faz mesmo isso todos os dias.” Às vezes mexe o balde. Às vezes esquece-se. O resultado é sempre um tónico espesso e castanho, que ele dilui e deita na base de plantas “comilhonas”, como tomates e alhos-porros. Rudimentar, mas eficaz.

Onde a maioria de nós se mete em sarilhos é em tratar cada urtiga como um inimigo. Arrancamos, cavamos, e deixamos manchas de solo nu para trás. Depois ficamos surpreendidos quando novas ervas daninhas aparecem duas vezes mais depressa. O Martin faz o contrário: gere, em vez de combater. Corta antes de formar sementes, aproveita o que corta e mantém as raízes onde os organismos do solo as podem desfrutar.

Se alguma vez teve uma invasão a sério, sabe o pânico: tornozelos a arder, raízes enredadas em tudo, aquela sensação de perder o controlo da horta. O Martin dir-lhe-ia isto: não precisa de convidar urtigas para todos os canteiros. Só precisa de uma área controlada e da coragem de a ver como fornecedora, em vez de ameaça.

Ele fala com principiantes como quem já passou por isso, porque passou. Há anos, queimou a parcela com herbicida e passou as épocas seguintes a perguntar-se porque é que nada parecia verdadeiramente vivo. “Eu achava que uma horta limpa era uma horta boa”, diz ele. “Agora sei que uma horta viva é que é uma horta boa.”

“O dia em que deixei de fazer guerra a cada planta selvagem foi o dia em que os meus legumes começaram realmente a crescer”, disse-me o Martin, apoiado na enxada. “As ervas daninhas nem sempre são o problema. Às vezes estão apenas a dizer-te o que falta ao teu solo.”

Para tornar a abordagem fácil de copiar, ele resumiu-a a alguns hábitos simples:

  • Manter uma mancha de urtigas controlada como o seu “canto de recursos”.
  • Cortar as urtigas antes de florirem ou fazerem semente.
  • Usar urtigas frescas como cobertura morta à volta de vegetais já estabelecidos, não sobre plântulas muito pequenas.
  • Transformar o excedente em chorume de urtiga durante a época de crescimento.
  • Deixar as raízes no solo para alimentar a vida do solo e melhorar a estrutura.

Estes cinco gestos parecem quase demasiado básicos no papel. Na horta, mudam tudo lentamente. Menos balde do lixo, menos desperdício, menos gasto. Mais cobertura, mais fertilidade, mais confiança tranquila de que o seu solo está a trabalhar consigo, não contra si.

Repensar o que “não pertence” aos seus canteiros

Numa tarde calma, quando a maioria das pessoas já tinha ido para casa, passei de novo pelas duas parcelas vizinhas. A arrumada, sem ervas daninhas, parecia pronta para uma fotografia de revista: linhas direitas, solo visível, boas intenções por todo o lado. A outra, a do Martin, parecia quase a orla de um pequeno bosque: camadas, sombras, margens vivas.

Reparei em pequenas rãs escondidas debaixo da cobertura de urtiga. Escaravelhos a correr pelos caminhos. Minhocas a puxarem fragmentos de folha para a escuridão. O sítio inteiro zumbia em silêncio, mesmo sem uma única máquina ou gadget à vista. Aquela “erva daninha” que adoramos odiar estava a funcionar como um convite tanto à vida selvagem como à microvida.

Todos já tivemos aquele momento em que olhamos para um canto desarrumado e sentimos um ligeiro embaraço, tentados a limpar tudo numa tarde agressiva. No entanto, esses cantos são muitas vezes as partes mais ricas de um jardim. É onde os predadores se estabelecem, onde os polinizadores descansam, onde o solo nunca vê o céu a descoberto.

Deixar uma planta como a urtiga ter um papel tem menos a ver com preguiça e mais com confiança. Confiar que a natureza se fertiliza a si mesma há muito mais tempo do que existem sacos de composto. Confiar que os seus vegetais podem partilhar espaço com algo selvagem sem perderem a batalha de imediato.

Talvez a verdadeira mudança seja esta: parar o reflexo de achar que toda a planta desconhecida é inimiga. Algumas são apenas voluntárias com vantagens. Algumas, como a urtiga, são trabalhadoras duras e generosas à espera de serem postas “na folha de pagamentos”. Depois de ver os seus próprios tomates prosperarem sobre um colchão do que antes amaldiçoava, é difícil voltar a olhar para uma “erva daninha” da mesma maneira.

Ponto-chave Detalhe Benefício para o leitor
Urtigas como adubo gratuito As urtigas acumulam nutrientes e libertam-nos como cobertura morta ou fertilizante líquido Reduzir gastos com fertilizantes comprados, enriquecendo o solo de forma natural
Cortar, não arrancar Cortes regulares antes da floração controlam a propagação e alimentam o solo Manter as urtigas úteis sem deixá-las invadir os canteiros
Solo vivo acima de solo “limpo” Canteiros cobertos e ligeiramente selvagens ficam mais frescos, húmidos e cheios de vida Vegetais mais saudáveis e resistentes, com menos rega e menos stress

FAQ:

  • É seguro usar urtigas à volta de todos os vegetais? Use-as à volta de plantas já estabelecidas como tomates, brássicas, abóboras e batatas; evite sufocar plântulas pequenas com uma camada espessa de cobertura fresca.
  • As urtigas não vão tomar conta da minha horta? Podem, se forem ignoradas; corte-as antes de florirem ou de irem a semente e mantenha uma mancha dedicada como a sua “zona fornecedora”.
  • Tenho de fazer chorume de urtiga, ou a cobertura chega? Só a cobertura já ajuda muito; o chorume é um extra opcional para plantas muito exigentes ou solos cansados.
  • Com que frequência devo aplicar fertilizante de urtiga? Durante a época de crescimento, muitos horticultores usam chorume diluído a cada duas a três semanas em culturas exigentes.
  • E se eu for alérgico às urtigas ou odiar picadas? Use luvas grossas, mangas compridas e tesouras afiadas; depois de secas ou decompostas, as urtigas perdem o ardor e podem ser manuseadas com facilidade.

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